Lisboa, 9 de fevereiro de 2026 — António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), foi eleito presidente de Portugal no segundo turno realizado neste domingo (8). O político de centro-esquerda obteve 66,8% dos votos, contra 33,2% do adversário André Ventura, líder do partido de direita radical Chega. Seguro assume o cargo em março.
Vitória recorde e cenário político
Com 3,48 milhões de votos, Seguro alcançou a maior votação já registrada por um presidente português. Ventura, por sua vez, somou 1,73 milhão de votos — número superior aos 1,44 milhão conquistados pelo Chega nas legislativas de 2025, quando o partido elegeu 60 deputados e tornou-se a segunda maior força no Parlamento.
A eleição ocorreu num ambiente de forte polarização e de crescimento do discurso anti-imigração. Mais de meio milhão de brasileiros vivem em Portugal e acompanham de perto as propostas que podem alterar sua situação no país.
Três desafios centrais para o novo presidente
1. Governabilidade e estabilidade política
Portugal adota o sistema semipresidencialista: o governo é chefiado pelo primeiro-ministro, mas o presidente pode vetar leis, devolver projetos ao Parlamento ou, em último caso, dissolver a Câmara e convocar eleições — prerrogativa apelidada de “bomba atômica”.
Desde 2022, o país realizou três eleições legislativas, duas delas antecipadas. O atual governo, formado pela Aliança Democrática (AD) e sem maioria parlamentar, depende da abstenção do PS ou do Chega para aprovar matérias. Seguro deve atuar como mediador para evitar novas crises e pode pressionar o PS a manter a chamada “abstenção estratégica” que tem permitido a sobrevivência do Executivo.
2. Direitos das minorias, imigração e nacionalidade
O rápido aumento da população estrangeira — de 592 mil em 2019 para mais de 1,5 milhão hoje — elevou o debate migratório. No último ano, mudanças na Lei de Estrangeiros restringiram vistos de trabalho e dificultaram o reagrupamento familiar. Também foi aprovada no Parlamento uma revisão da Lei da Nacionalidade, ampliando de cinco para sete anos o prazo mínimo de residência para brasileiros solicitarem cidadania; o texto, entretanto, voltou à apreciação parlamentar após questionamentos constitucionais.
Ventura promete insistir em propostas como a prioridade de portugueses em serviços públicos, medida que pode restringir direitos de imigrantes. Analistas preveem que Seguro usará o poder de veto se considerar que eventuais mudanças ferem a Constituição.
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3. Política internacional e defesa
Embora a formulação da política externa caiba ao governo, o presidente é chefe de Estado e comandante supremo das Forças Armadas, com influência sobre tratados e alianças. A vitória de Seguro sinaliza a manutenção da postura moderada de Portugal na União Europeia, em meio à guerra na Ucrânia e aos debates sobre autonomia europeia em defesa.
No relacionamento com o Brasil, a expectativa é de continuidade do diálogo. Seguro deve manter relações cordiais com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pode apoiar iniciativas comerciais, como o acordo Mercosul–União Europeia, de interesse para Lisboa.
Seguro assume oficialmente em março e terá de equilibrar a pressão de um Parlamento fragmentado, demandas sociais crescentes e a necessidade de preservar direitos de mais de 500 mil brasileiros residentes no país.
Com informações de G1