Quatro anos após o início da invasão russa, brasileiros continuam indo para o front ucraniano movidos por promessas de salários altos e espírito de aventura. O Fantástico localizou quatro ex-combatentes baianos que voltaram ao Brasil marcados por perdas, traumas e sentimento de culpa.
Recrutamento e promessas não cumpridas
João Victor de Jesus Teixeira, que adotou o codinome “Arcanjo”, gravou vídeos conclamando outros brasileiros a se juntar às fileiras ucranianas. Agora, afirma estar arrependido: “Vi muitos amigos morrerem. Percebi que a guerra não era para mim”.
O produtor musical Marcos também embarcou seduzido por supostos salários de “50 mil”. Descobriu depois que o valor se referia a grívnias — cerca de R$ 5 mil — e não reais.
Falta de experiência militar
Redney, outro baiano, sonhava em ingressar no Exército brasileiro, mas jamais serviu. Decidiu ir à Ucrânia “pela adrenalina”. Pretendia ficar 30 dias, mas permaneceu 172. Nesse período:
- Enfrentou bombardeios a apenas 100 metros das tropas russas;
- Perdeu 17 companheiros, entre eles o paranaense Wagner, conhecido como “Braddock”;
- Foi ferido por estilhaços de granada e teve parte do corpo paralisada por dias.
Tentativas de fuga e relatos de tortura
Os ex-combatentes narram punições severas a quem tenta desertar. “Se alguém é pego fugindo, é preso e torturado”, contou um dos brasileiros. Outro disse ter trocado tiros com soldados ucranianos enquanto escapava.
Fome e sequelas
De volta ao país, um dos entrevistados afirma ter perdido 28 quilos e relatou longos períodos sem refeição adequada. “Passei três dias vivendo só com o tempero do macarrão instantâneo”, disse.
Mortos e desaparecidos
Dados do Ministério das Relações Exteriores apontam 19 brasileiros mortos e 44 desaparecidos desde o início do conflito. Famílias relatam meses sem notícias. A esposa de um combatente não tem contato desde novembro: “Pode estar morto. É uma realidade que tento enfrentar”, declarou.
Imagem: Internet
Frente de batalha em curso
Apesar das dificuldades, ainda há brasileiros na linha de frente. Marcelo, também baiano, atua hoje em forças especiais e de inteligência na cidade de Zaporizhzhia, onde fica a maior usina nuclear da Europa. “Tentando sobreviver”, disse, por mensagem.
A embaixada da Ucrânia no Brasil afirma que não recruta estrangeiros; quem se alista, segundo o órgão, recebe os mesmos direitos e deveres de um cidadão ucraniano em serviço militar.
Retorno à rotina
Os ex-combatentes que regressaram ao Brasil buscam retomar a vida civil. Um deles aposta no convívio com a filha para amenizar as lembranças do front: “Ela deixa o dia mais leve”.
Com informações de G1